A flor do cerrado

As flores do cerrado são mais lindas que as outras.

Mas também são desconjuntadas.

Parecem mulheres pobres em festas de rico.

Vão sempre vestidas um pouco a mais. Com um babado amais, com uma renda a mais.

Eu amo as flores do cerrado.

Elas aparecem acima do capim. Eu cresci no cerrado, e sei que elas falam com a gente. Mas só quando a gente é gente pequena. Depois não mais.

As flores do cerrado, em segredo, sabem de onde vêm. Elas vêm de um chão seco, de um terreno agreste, brotam de um cascalho duro e grosso. Nunca são germes de plantas altas, são de caules tortos e cascudos.

De forma que, quando brotam, já venceram tanta miséria, que a si só lhes resta a beleza.

Por isso são carnudas. São bem vestidas. São como se tivessem saído de um baile de gala.

Um baile de gala onde só houvesse elas mesmas.

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