Uma varanda em Recife

Estou precisando que a vida já seja só isso – uma varanda. Eu sempre tive uma força bruta de trabalho, muito acima do que a alma concebe. Era o trabalho que me fazia esquecer a doença, os desejos tortos, a sofreguidão em ser o que se queria. Mas na poesia eu me lembrava da vida como matéria e estado. No cigarro, na bebida e nos encontros eu lembrava da doença maravilhosa que era eu, lembrava que, da tortuosidade dos desejos eu construía um caminho que me mantinha vivo, e me lembrava que querer ser também é o que se é agora. “O que me assombra são as segundas-feiras”. Quantas segundas-feiras malditas somadas encheram meu pote até a borda. E é desta água derramada que eu quero escorregar como uma bica d’água buscando um córrego, como um rio solto buscando a foz, como uma maré corredeira subindo à tempestade buscando nuvem que, quando negra, se espalha em mundo inteiro.

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